CAMINHOS PARA A EFICIÊNCIA E A TRANSPARÊNCIA NA GESTÃO GOVERNAMENTAL
Por: Semírames Nogueira, Gabriel Lobato, Eduardo Silka, Tiago Cavazin e Thiago Rossi
RESUMO
A transformação digital tem reconfigurado a administração pública, impulsionando novos modelos de governança baseados em tecnologia, inovação e dados. Nesse contexto, o conceito de GovTech emerge como uma agenda estratégica capaz de conectar governos a soluções inovadoras desenvolvidas por startups e organizações da sociedade civil. Este artigo analisa os principais caminhos para a eficiência e a transparência na gestão pública a partir da adoção de soluções GovTech. São abordados aspectos como a modernização da máquina estatal, dados abertos (instrumento de controle social), accountability, parcerias inovadoras, desafios institucionais e recomendações para a adoção de políticas digitais. Com base em referências teóricas e casos práticos nacionais e internacionais, o estudo destaca a relevância da governança digital para a construção de um Estado mais ágil, eficiente e centrado no cidadão. A pesquisa contribui para o fortalecimento de ecossistemas públicos inovadores e para a consolidação de uma agenda digital inclusiva e transparente.
Palavras-chave: GovTech; Transformação Digital; Transparência Pública; Dados Abertos; Accountability; e Inovação no Setor Público.
- INTRODUÇÃO – O SURGIMENTO DA AGENDA GOVTECH
Inicialmente, o Estado moderno consolidou-se em modelos burocráticos formais, voltados a rotinas hierarquizadas e ao controle interno das atividades estatais (Castells, 2003; Janowitz, 1960). Essa lógica, embora eficaz em sua época, mostrou-se lenta para responder às demandas de cidadãos cada vez mais conectados e exigentes por serviços ágeis.
Em seguida, o avanço das tecnologias de informação impulsionou a e-gov, conceito que preconiza a digitalização de processos administrativos para elevar eficiência e reduzir custos (McClure, 2005; WEF, 2021). Governos engajaram-se em portais de serviços online, mas ainda precisavam de inovação contínua e parcerias externas.
Nesse contexto, emergiu o conceito GovTech como agenda estratégica que combina políticas públicas digitais com soluções criadas por startups e sociedade civil (Mathews, 2022). As GovTechs propõem abordagens ágeis e interativas, ampliando a capacidade de resposta do setor público a desafios complexos.
A linha do tempo do surgimento da Agenda GovTech, a seguir, evidencia o percurso de transformação digital no setor público, mostrando como iniciativas pioneiras — a partir do lançamento do conceito Gov 2.0 em 2009 e da criação da Parceria para Governo Aberto (OGP) em 2011 — deram origem a um ecossistema colaborativo entre governos, sociedade civil e setor privado. Essa informação é crucial pois mapeia o fortalecimento da transparência, da participação cidadã e da inovação em políticas públicas, revelando o papel das startups e das aceleradoras como vetores de soluções tecnológicas para desafios governamentais.
Entre 2009 e 2025, observamos um salto qualitativo: das primeiras plataformas online de engajamento público, passando pelas rodadas de investimento em empresas GovTech em 2016, até a aceleração forçada pela pandemia em 2020 e a expansão global nos mercados emergentes em 2022.
Em 2025, a consolidação de GovTech como estratégia global reflete a maturidade dessas iniciativas, que agora integram inteligência artificial, dados abertos e mecanismos de accountability para tornar governos mais eficientes, resilientes e centrados nas necessidades do cidadão.
O gráfico em formato de “Smart Art” representa a linha do tempo do surgimento da Agenda GovTech, desde as primeiras iniciativas de Governo 2.0 até a consolidação em 2025. Ele destaca os principais marcos e demonstra como as políticas públicas digitais e o ecossistema de startups GovTech evoluíram ao longo dos anos.
ILUSTRAÇÃO 01 : Linha do Tempo do surgimento da agenda GovTech até 2025
Fonte: autoria própria, 2025.
Do ponto de vista metodológico, este artigo adota uma abordagem qualitativa, teórico-propositiva e analítica, fundamentada na revisão de literatura especializada, em marcos legais e em documentos institucionais nacionais e internacionais. O estudo mobiliza uma base documental composta por leis, decretos, políticas públicas e relatórios técnicos produzidos por organismos multilaterais como a OCDE, o Banco Mundial e o Fórum Econômico Mundial, bem como estudos de caso extraídos de experiências recentes em países como Brasil, Reino Unido e Chile.
O recorte temporal compreende o período entre 2009 e 2025, correspondente à consolidação da agenda GovTech no cenário internacional. Ressalta-se que não foram utilizados dados primários, uma vez que o objetivo do artigo é mapear diretrizes e caminhos estratégicos para a modernização estatal a partir de fontes secundárias qualificadas e análises conceituais.
Contudo, o objetivo deste artigo é mapear os principais caminhos para a eficiência e a transparência na gestão governamental por meio de soluções GovTech, justificando-se pela necessidade de modernizar a “máquina pública” diante das transformações sociais e tecnológicas atuais (OCDE, 2020).
Por fim, a relevância deste estudo reside no aporte de fundamentos teóricos e em casos práticos nacionais e internacionais, oferecendo subsídios para formulação de políticas digitais mais inclusivas, resilientes e centradas no cidadão.
- TRANSFORMAÇÃO DIGITAL E MODERNIZAÇÃO DA MÁQUINA PÚBLICA
A transformação digital tem se consolidado como uma das principais estratégias para a reconfiguração da máquina pública no século XXI. Trata-se de um processo que vai além da mera digitalização de serviços: envolve mudanças estruturais nos modos de funcionamento da administração pública, na sua relação com os cidadãos e no uso estratégico de tecnologias emergentes para promover um Estado mais eficiente, responsivo e centrado no cidadão.
Essa evolução é evidenciada pelas diferentes fases do governo eletrônico, que podem ser compreendidas a partir da tipologia e-Gov 1.0, 2.0 e 3.0. Na fase inicial, o e-Gov 1.0 caracterizou-se pela utilização de sites institucionais com informações básicas e serviços digitais unidirecionais. Já o e-Gov 2.0 representou um avanço ao incorporar elementos de interatividade, participação social e transparência ativa, possibilitados pela Web 2.0 e pelas redes sociais. Mais recentemente, o e-Gov 3.0 emerge como um novo paradigma orientado por tecnologias disruptivas como blockchain, inteligência artificial, smart contracts e Internet das Coisas (IoT), articulando uma lógica de Estado como plataforma, interoperável e orientada por dados (Terzi et al., 2019).
Nesse contexto, a digitalização dos serviços públicos tem sido um dos pilares da estratégia de modernização do setor público brasileiro. O objetivo é reduzir a burocracia, ampliar o acesso da população a direitos e simplificar processos administrativos que antes demandavam deslocamento físico, espera em filas e uso de papel. A digitalização, quando bem implementada, contribui significativamente para melhorar a experiência do usuário, gerar economia de recursos públicos e fortalecer a confiança na gestão pública.
No Brasil, iniciativas como a plataforma gov.br, o sistema de atendimento virtual da Receita Federal (e-CAC), os serviços digitais do DETRAN e os aplicativos de saúde (como Conecte SUS) evidenciam esse movimento em direção à prestação digital de serviços.
Segundo relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE, 2024), a adoção de tecnologias digitais só se converte em inovação quando está acompanhada de mudanças institucionais, reestruturação organizacional e desenvolvimento de capacidades para lidar com o risco e a complexidade. A inovação digital, nesse sentido, requer um ambiente propício à experimentação, ao aprendizado institucional e à abertura à colaboração intersetorial. A eficiência administrativa, portanto, não se resume à automação de processos, mas está associada à capacidade do Estado de reorganizar fluxos, integrar sistemas, tomar decisões baseadas em dados e oferecer serviços com maior valor público.
A transformação da máquina pública, portanto, deve ser entendida como um fenômeno multidimensional, que envolve aspectos tecnológicos, culturais, organizacionais e regulatórios. Para que a inovação se torne parte da engrenagem do Estado, é necessário criar condições para a experimentação segura, com foco na aprendizagem institucional e na gestão de riscos.
De acordo com o relatório Enabling Digital Innovation in Government (OCDE, 2024), países que apresentam melhores resultados em transformação digital são aqueles que investiram simultaneamente em três eixos: infraestrutura digital madura, estruturas institucionais capazes de sustentar a inovação é um ecossistema de parcerias público-privadas articulado.
Esse modelo é sistematizado no GovTech Policy Framework da OCDE, que propõe dois conjuntos interdependentes: os GovTech Building Blocks (infraestrutura, capacidades internas, suporte técnico e soluções escaláveis) e os GovTech Enablers (marcos legais, governança e mecanismos de financiamento). No Brasil, essas diretrizes encontram respaldo em iniciativas nacionais como a Estratégia Brasileira para a Transformação Digital (E-digital) e a Lei do Governo Digital.
A consolidação da transformação digital no setor público brasileiro é resultado de um processo histórico marcado por avanços legislativos, institucionais e estratégicos. A trajetória teve início com a informatização de serviços e evoluiu para a digitalização em larga escala, especialmente a partir da criação do Programa de Governo Eletrônico no início dos anos 2000.
No campo normativo, destacam-se três marcos centrais que estruturam juridicamente essa transição: o Marco Civil da Internet (Lei nº 12.965/2014), que define princípios para o uso da internet no país, como neutralidade da rede, proteção da privacidade e garantia da liberdade de expressão; a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD – Lei nº 13.709/2018), que estabelece regras para o tratamento de dados pessoais no setor público e privado; e a Lei do Governo Digital (Lei nº 14.129/2021), que consagra o direito do cidadão a serviços públicos digitais de qualidade, além de definir princípios como interoperabilidade, dados abertos, design centrado no usuário e transparência.
Esses marcos legais foram acompanhados por importantes diretrizes estratégicas, como a Estratégia de Governança Digital da Administração Pública Federal (2016–2019) e a subsequente Estratégia de Governo Digital (2020–2022), que orientaram a digitalização de serviços, a integração de plataformas e a melhoria da experiência do usuário. Essas estratégias não são isoladas: fazem parte de um processo cumulativo de fortalecimento da capacidade estatal em lidar com os desafios da era digital. Atualmente, esse esforço se materializa na Estratégia Brasileira para a Transformação Digital – E-digital (Ciclo 2022–2026), que amplia o escopo da agenda digital para incluir temas como infraestrutura, pesquisa, cidadania, inovação e confiança no ambiente digital. Trata-se de uma evolução da lógica governamental, em que os princípios da transformação digital se articulam com políticas de longo prazo e com a ampliação do acesso da população às tecnologias.
Complementarmente, o Decreto nº 9.319/2018, ao instituir o Sistema Nacional para a Transformação Digital (SinDigital), contribuiu para a construção de uma estrutura de governança voltada à articulação entre os diferentes atores institucionais envolvidos. Já o Marco Legal da Ciência, Tecnologia e Inovação, que reúne um conjunto de leis e decretos, fornece amparo para fomentar parcerias público-privadas, ambientes regulatórios flexíveis e ecossistemas colaborativos voltados à inovação. Esses instrumentos, tomados em conjunto, sustentam a arquitetura jurídica e estratégica da transformação digital no Brasil, fornecendo diretrizes para a atuação estatal em um contexto de crescente complexidade tecnológica e demanda social por serviços mais acessíveis, responsivos e seguros.
Esses dados reforçam que a transformação digital da administração pública não pode ser conduzida de forma isolada ou setorializada. Ela requer uma abordagem integrada e transversal, combinando infraestrutura tecnológica, legislação adequada, capacitação institucional e cultura orientada à inovação. A construção de um Estado digital exige esforços coordenados para romper silos organizacionais, padronizar interfaces, garantir a interoperabilidade dos dados e oferecer serviços que respeitem a privacidade, a acessibilidade e a pluralidade dos cidadãos brasileiros.
Em síntese, a transformação digital da administração pública brasileira está em curso, sustentada por um sólido arcabouço legal e por estratégias nacionais consistentes. A digitalização de serviços, a busca por eficiência administrativa e a institucionalização de políticas públicas de inovação formam os pilares desse processo. A literatura recente, tanto acadêmica (como Terzi et al., 2019) quanto institucional (OCDE, 2024), indica que a modernização da máquina pública passa necessariamente pela articulação entre tecnologia, governança e foco no cidadão. O Brasil já dispõe dos elementos estruturais para esse avanço — o desafio agora é escalar soluções, qualificar continuamente os agentes públicos e promover uma cultura de inovação capaz de sustentar a transformação digital como uma política de Estado.
- TRANSPARÊNCIA, DADOS ABERTOS E PRESTAÇÃO DE CONTAS
A transparência, quando aliada à publicação de dados abertos e à efetiva prestação de contas, configura-se como um dos pilares centrais de uma governança pública moderna, inclusiva e responsiva. A disponibilização de informações claras, acessíveis e em tempo hábil, sobre orçamentos, contratos, indicadores de desempenho e projetos em andamento, fortalece a confiança da população nas instituições públicas e estimula uma cultura de participação social mais ativa e qualificada no processo decisório.
Além disso, o acesso a bases de dados públicas padronizadas, estruturadas e interoperáveis possibilita análises independentes por parte da sociedade civil, da imprensa, de órgãos de controle e da academia. Essa capacidade analítica favorece a identificação de gargalos operacionais, a proposição de melhorias contínuas e o monitoramento de políticas públicas com base em evidências.
Nessa perspectiva, a transparência transcende sua dimensão normativa e torna-se uma ferramenta estratégica de gestão, contribuindo para a otimização dos recursos públicos, a prevenção de práticas ilícitas e o fortalecimento da co-responsabilidade entre governo e sociedade na construção de cidades mais eficientes, resilientes e sustentáveis.
No Brasil, a institucionalização desse princípio se deu com a promulgação da Lei de Acesso à Informação (Lei nº 12.527/2011), que assegura o direito de todo cidadão à publicidade dos atos da administração pública, estabelecendo prazos, formatos e critérios objetivos para a divulgação de informações (BRASIL, 2011). Trata-se de um marco jurídico fundamental para a consolidação da accountability e do controle social no país.
Complementarmente, plataformas como o Portal da Transparência e o Dados.gov.br oferecem interfaces amigáveis e padronizadas que permitem ao cidadão consultar informações sobre gastos públicos, convênios, licitações e transferências, com possibilidade de filtragem e geração de relatórios customizados (G1, 2021). Essas ferramentas digitais ampliam a capacidade de vigilância social e promovem maior aproximação entre o Estado e o cidadão.
A publicação de dados abertos sob licenças permissivas potencializa, ainda, a chamada economia de dados. Ao permitir que desenvolvedores, pesquisadores, startups e organizações da sociedade civil criem soluções baseadas em dados públicos, o Estado impulsiona a inovação cívica e o desenvolvimento de aplicações que promovem maior transparência, participação social e prevenção à corrupção.
Nesse ecossistema digital, a prestação de contas assume novos contornos, passando a incorporar mecanismos dinâmicos de monitoramento, como APIs abertas, painéis interativos e indicadores em tempo real que acompanham a execução de metas e políticas públicas. Esses instrumentos permitem que a sociedade avalie o desempenho dos gestores públicos de maneira contínua e fundamentada, ampliando a responsabilização e o controle democrático sobre a atuação estatal (OCDE, 2020).
No cenário nacional, uma importante iniciativa legislativa reforça a convergência entre transparência, segurança da informação e inovação tecnológica: o Projeto de Lei nº 2987/2023, em tramitação na Câmara dos Deputados. A proposta altera a Lei de Acesso à Informação (Lei nº 12.527/2011) para incorporar expressamente o uso da tecnologia blockchain como instrumento de imutabilidade, auditabilidade e integridade dos dados públicos.
Ao reconhecer a blockchain como um livro-razão descentralizado e criptografado, o projeto estabelece fundamentos normativos para que informações governamentais – como registros, transações e bases de dados – possam ser armazenadas de forma segura e resistente a fraudes.
A proposta também prevê a adoção de medidas estratégicas e planos de implementação por parte dos órgãos públicos, fomentando parcerias com o setor privado e o uso de redes distribuídas para fortalecer a proteção de dados contra ataques cibernéticos. Essa medida representa um avanço significativo rumo à institucionalização da transparência digital no Brasil, promovendo maior confiança da sociedade na governança pública e na prestação de contas.
Em síntese, a articulação entre marcos legais, tecnologias da informação e uma cultura orientada por dados constitui a base para uma administração pública mais transparente, auditável e orientada ao interesse público. A consolidação dessa tríade — legislação, tecnologia e participação — representa um avanço estrutural rumo a uma gestão pública mais aberta, eficiente e legitimada socialmente.
- ECOSSISTEMAS DE INOVAÇÃO E PARCERIAS GOVTECH
O avanço da transformação digital no setor público tem sido impulsionado pela consolidação de ecossistemas de inovação que aproximam governos de soluções tecnológicas desenvolvidas por startups, universidades, institutos de pesquisa e organizações da sociedade civil. Nesse cenário, as GovTechs — startups que desenvolvem soluções específicas para os desafios da gestão pública — vêm ganhando protagonismo como agentes catalisadores de inovação, eficiência e agilidade nos serviços governamentais.
A atuação dessas empresas vai além da digitalização de processos: elas promovem a experimentação de modelos mais flexíveis de entrega de valor público, com base em metodologias ágeis, prototipagem rápida, validação em campo e design centrado no usuário. Soluções como atendimento automatizado por meio de chatbots, plataformas inteligentes de gestão de processos e ferramentas de análise preditiva são exemplos do potencial das GovTechs em modernizar a relação entre Estado e sociedade (Mathews, 2022).
As parcerias público-privadas para inovação assumem papel estratégico nesse ecossistema, ao viabilizar o cofinanciamento de projetos, a mitigação de riscos e o compartilhamento de conhecimento técnico. Iniciativas como os GovTech Hubs no Reino Unido e no Chile ilustram como a articulação entre governos, startups e aceleradoras pode resultar em programas estruturados de desafios públicos, editais de inovação aberta e investimentos robustos em soluções escaláveis (WEF, 2021).
No Brasil, observa-se o fortalecimento gradual desse ecossistema por meio de iniciativas como o Observatório Nacional de GovTech, as chamadas públicas da FINEP e os programas de aceleração promovidos por entidades como o BrazilLab, que atuam na conexão entre startups e órgãos públicos. Casos de sucesso incluem plataformas digitais de agendamento de serviços, sistemas de triagem automatizada no Judiciário e soluções de gestão preditiva para áreas como saúde, mobilidade e assistência social.
Esses programas de aceleração conjunta promovem também um ambiente propício ao intercâmbio de conhecimento entre servidores públicos e empreendedores. A formação conjunta em metodologias como design thinking, user research, testes de usabilidade e prototipagem colaborativa qualifica os agentes envolvidos e favorece a criação de soluções mais aderentes à realidade institucional e às necessidades dos cidadãos.
A construção de ecossistemas colaborativos não apenas estimula a difusão de boas práticas de inovação como fortalece a governança compartilhada, rompe silos organizacionais e amplia a capacidade adaptativa do Estado. À medida que o setor público adota uma postura mais aberta à experimentação, ele se reposiciona como plataforma facilitadora de soluções criativas, sustentáveis e voltadas ao bem comum.
Em síntese, o fortalecimento de parcerias GovTech representa uma estratégia promissora para superar a rigidez dos modelos tradicionais de inovação no setor público. Ao integrar startups, governos e atores intermediários em redes de cooperação, cria-se um ambiente fértil para a geração de impacto social positivo, com soluções mais ágeis, inclusivas e escaláveis no enfrentamento dos desafios públicos contemporâneos.
- DESAFIOS E PERSPECTIVAS DA GOVERNANÇA DIGITAL NO SETOR PÚBLICO
A transformação digital do setor público impõe uma profunda reconfiguração dos modelos tradicionais de gestão, colocando a governança digital no centro das estratégias de modernização do Estado.
Este capítulo aborda os principais desafios e perspectivas da governança digital, com foco na construção de um ecossistema público mais eficiente, transparente e responsivo às demandas da sociedade.
Em um cenário de acelerada digitalização, torna-se essencial superar obstáculos como a interoperabilidade entre sistemas, a resistência institucional à inovação, os riscos crescentes à segurança e à privacidade dos dados, bem como garantir a sustentabilidade das iniciativas tecnológicas no longo prazo. Ao analisar esses elementos de forma integrada, este estudo busca contribuir para o desenvolvimento de políticas públicas mais eficazes, baseadas em padrões abertos, cultura colaborativa e mecanismos contínuos de avaliação e adaptação.
A interoperabilidade de sistemas governamentais permanece um dos maiores desafios, exigindo padrões abertos de dados e arquitetura orientada a serviços (SOA) para integração fluida entre plataformas heterogêneas (OCDE, 2020).
Barreiras institucionais, como estruturas hierárquicas rígidas e silos departamentais, dificultam a adoção de cultura ágil e a colaboração entre equipes multidisciplinares, retardando o avanço de projetos digitais.
Questões de cibersegurança, ética e proteção de dados ganham relevância crescente diante da crescente digitalização, demandando políticas de privacidade alinhadas à LGPD e controles robustos para prevenir vazamentos e ataques (McClure, 2005).
Por fim, a sustentabilidade das iniciativas GovTech requer modelos de governança adaptativos, capazes de incorporar feedback contínuo, mensurar resultados de impacto e assegurar a continuidade das melhorias tecnológicas.
Diante dos desafios mapeados, fica evidente que a consolidação da governança digital no setor público exige mais do que investimentos tecnológicos — requer uma transformação cultural, institucional e normativa profunda. A superação das barreiras à interoperabilidade, o fortalecimento da segurança e da ética digital, bem como a construção de modelos de gestão mais ágeis e adaptativos, são condições fundamentais para que as iniciativas GovTech alcancem impacto real e duradouro.
Conclui-se, que o futuro da governança digital dependerá da capacidade dos governos de promover a integração entre tecnologia, pessoas e processos, com foco na transparência, na inovação contínua e na centralidade do cidadão.
6. RECOMENDAÇÕES ESTRATÉGICAS PARA ADOÇÃO DE SOLUÇÕES GOVTECH
A adoção de soluções GovTech – empresas de tecnologia focadas em modernizar o setor público – é vista globalmente como uma oportunidade multibilionária: o Fórum Econômico Mundial estima que até 2034 o GovTech poderá gerar cerca de US$ 9,8 trilhões em valor público, ao melhorar eficiência, transparência e confiança nos governos. Para gestores públicos brasileiros, esse cenário global inspira modernização interna. Hoje o Brasil já se destaca em rankings mundiais: no GovTech Maturity Index 2022 do Banco Mundial, por exemplo, o país subiu da 7ª para a 2ª posição, tornando-se líder digital no Ocidente.
Esse avanço reflete iniciativas como a plataforma GOV.BR (com 140 milhões de usuários, cerca de 80% da população adulta) que unifica centenas de serviços digitais, e recursos inovadores — declarações de imposto pré-preenchidas, portais de feedback cidadão, integração de sistemas sociais e trabalhistas, entre outros. Esses marcos apontam que o Brasil já abraçou uma etapa inicial de Governo Digital centrado no cidadão.
Mesmo assim, especialistas alertam que o ecossistema GovTech brasileiro ainda é incipiente e demanda reforços estruturais. Atualmente há poucas startups que se definem GovTech (muitas ainda se dizem FinTech ou EduTech), e faltam incubadoras ou fundos dedicados a esse segmento.
Há também desafios em regulação e governança: o Brasil tem avançado na atualização das regras de compras públicas para inovação, mas ainda carece de agilizar licitações experimentais e ampliar projetos-piloto que testem novas tecnologias em desafios reais. Em resumo, embora o Brasil colha frutos de serviços digitais robustos, gestores públicos enfrentam o desafio de consolidar uma cultura de inovação contínua e institucionalizar práticas que permitam escalar soluções GovTech.
Modelos de implementação e parcerias inovadoras
Para multiplicar o impacto das GovTechs, é preciso criar modelos de implementação apropriados. O governo federal já deu passos importantes: em 2022 o Decreto n.º 10.996 incorporou as GovTechs na Estratégia de Governo Digital, definindo-as como “empresas focadas em tecnologia, processos de trabalho e soluções ágeis, com o propósito de gerar inovação para a gestão pública”. Esse decreto prevê “dinâmica de integração” entre órgãos públicos e o ecossistema GovTech, ampliando em 20% as chamadas de inovação aberta (concursos e hackathons) para identificar e desenvolver soluções tecnológicas no GOV.BR. Essas medidas estratégicas sinalizam que o Estado busca parcerias estruturadas com startups.
Gestores públicos podem avançar criando canais permanentes de colaboração: por exemplo, estabelecer um fórum GovTech nacional que reúna representantes dos governos federal, estaduais e municipais (e de órgãos de controle), unificando esforços de desenvolvimento e financiamento de soluções inovadoras. Também é recomendável fomentar laboratórios e “hacklabs” de inovação dentro da máquina pública – iniciativas que permitam testar novas ideias em pequena escala.
O CAF (Corporação Andina de Fomento) sugere que agências de governo criem laboratórios de inovação capazes de experimentar tecnologias emergentes, servindo de exemplo cultural e superando barreiras nas licitações de inovação. Paralelamente, deve-se ampliar o acesso a dados públicos (APIs, bases abertas) para que startups GovTech possam desenvolver protótipos e serviços baseados em dados reais.
Além disso, recomenda-se multiplicar programas temáticos e desafios setoriais. Definir áreas prioritárias onde ganhos rápidos são possíveis – como saúde e educação – e alinhar políticas públicas (Ex.: Estratégia Brasileira de Transformação Digital, Plano Nacional de IoT, Estratégia de IA) ao apoio a essas soluções.
Exemplos práticos incluem prêmios e maratonas (hackathons) nacionais de inovação: institutos como BrazilLab já promovem o “Desafio Tecnológico” em diversas cidades, conectando gestores a startups. Segundo a idealizadora Paula Faria (Connected Smart Cities), ações como o evento GovTech Brasil 2025 visam justamente “conectar gestores públicos federais com soluções inovadoras escaláveis, posicionar as GovTechs como aliadas estratégicas na modernização do Estado, estimular políticas públicas de fomento à inovação e fomentar parcerias entre startups e fundos especializados”.
Em suma, a estratégia é clara: criar ecossistemas de cooperação público-privada, fortalecer marcos regulatórios favoráveis (como contratos-piloto de inovação) e dar visibilidade a casos de sucesso para inspirar novas adoções.
Capacitação digital no serviço público
Nenhuma estratégia GovTech prospera sem servidores públicos preparados. A formação de competências digitais é fundamental não só para operar novas plataformas, mas para incorporar uma cultura de inovação no dia a dia da gestão. Como destaca o IPM, a educação digital dos servidores traz múltiplos benefícios: aumenta a produtividade (automatizando tarefas repetitivas), eleva a qualidade dos serviços (com decisões baseadas em dados), motiva os funcionários (ao aprenderem novas habilidades) e ainda reduz custos (menos papel e retrabalho).
Para formar essas competências, recomenda-se um mix de ações continuadas. Em primeiro lugar, fomentar aprendizado permanente: criar cultura de capacitação com workshops internos, fóruns de troca de experiências, mentoring entre servidores experientes em tecnologia e aqueles iniciantes, além de reconhecer os que investem em sua atualização. Programas estruturados também são essenciais, conforme os a seguir.
O Ministério da Economia, via ENAP, lançou o Programa Transformação Digital, que identifica papéis e habilidades-chave para disseminar a cultura digital na administração pública federal. A Escola Virtual de Governo (EGov) da ENAP oferece gratuitamente cursos online em competências digitais e inovação para servidores de todos os níveis. Governos estaduais e municipais podem se beneficiar criando seus próprios programas de capacitação (ou adaptando os da União) e incluindo tópicos sobre GovTech nos treinamentos obrigatórios.
Ademais, órgãos públicos de controle e de formação (por exemplo tribunais de contas, tribunais de justiça e institutos de administração pública) devem fortalecer suas grades de ensino. O relatório do CAF recomenda incorporar a agenda GovTech nesses cursos, alertando servidores, controladores e empreendedores sobre o potencial das soluções tecnológicas para melhorar a prestação dos serviços.
Em resumo, construir competências digitais exige combinar investimento em infraestrutura (conectividade, acesso a ferramentas) com ações pedagógicas contínuas: capacitar é tão estratégico quanto contratar tecnologia.
Políticas públicas inovadoras e caminhos futuros
O futuro do GovTech no Brasil dependerá de políticas públicas bem alinhadas às novas tecnologias. A experiência recente do país já traz aprendizados: o Decreto 10.996/2022, por exemplo, estabeleceu metas claras para fomentar GovTechs (incluir soluções de startups na Estratégia Digital, realizar eventos sobre compras de inovação e usar marcos legais de startups). No próximo ciclo estratégico (2023-2025), recomenda-se manter o ritmo: integrar competitivamente as GovTechs a programas de investimento público (ex.: direcionar parte dos recursos de projetos de IoT e IA para contratar startups GovTech). Também é importante definir tópicos prioritários de inovação, em concordância com planos nacionais – por exemplo, saúde e educação digital, mobilidade inteligente ou serviços socioassistenciais – e enquadrar esses temas em editais de inovação governamental.
Outra estratégia-chave é formalizar espaços de diálogo e governança. Criar um fórum permanente GovTech (federal-estadual-municipal) unificado pode evitar esforços desconexos, compartilhando casos bem-sucedidos e coordenando investimentos públicos e privados. Eventos regulares, conferências e redes de inovação (como a Comunidade GovTech Brasil) ajudam a cristalizar essa agenda. Por exemplo, o GovTech Brasil 2025, idealizado por entidades como CSC GovTech e investidores de impacto, visa justamente consolidar políticas de incentivo à inovação pública e aproximar gestores de fontes de financiamento (como o novo FIP GovTech).
Para os atuais gestores, as lições são claras: focar em soluções que agreguem valor real ao cidadão (como sugere Silvio Meira, centrando-se no usuário e não em digitalizar por digitalizar), treinar a equipe interna para apoiar essas soluções, e estabelecer marcos regulatórios que tornem viável a colaboração com startups e universidades. Se essas estratégias forem seguidas, o Brasil pode não apenas manter posições de liderança em governo digital (como atestam o índice do Banco Mundial e a experiência do GOV.BR), mas inspirar um novo modelo de política pública inovadora. Em vez de inovar isoladamente, o Estado se transformaria em plataforma de inovação contínua, em que a tecnologia deixa de ser apenas um discurso e passa a ser prática cotidiana na entrega de serviços ao cidadão – como reforça o movimento GovTech global.
7. CONCLUSÃO
O artigo demonstrou que GovTech constitui um motor de modernização estatal, ao integrar inovação, dados abertos e parcerias colaborativas para elevar eficiência e transparência governamental (Castells, 2003).
Síntese das contribuições: a digitalização de serviços, a cultura de accountability e o fortalecimento de ecossistemas inovadores emergem como pilares para a construção de um Estado mais ágil, inclusivo e centrado no cidadão.
Para o futuro, recomenda-se aprofundar pesquisas sobre a sustentabilidade financeira de plataformas GovTech e explorar usos de inteligência artificial ética em políticas públicas.
Adicionalmente, recomenda-se o aprofundamento de pesquisas e políticas públicas voltadas à inteligência artificial ética, com especial atenção à ascensão da IA generativa e à necessidade de governança algorítmica transparente. Dada a crescente adoção de sistemas baseados em IA no setor público — como chatbots, modelos preditivos e sistemas de triagem automatizada — torna-se essencial assegurar critérios claros de auditabilidade, explicabilidade e não discriminação algorítmica.
A formulação de marcos regulatórios e frameworks éticos que orientem o uso dessas tecnologias deve considerar os riscos de viés, opacidade e desigualdade, garantindo que a automação preserve os direitos fundamentais e os princípios da administração pública. A integração de práticas como o “algoritmo aberto” e a exigência de impacto algorítmico ex ante pode fortalecer a confiança da sociedade nas decisões automatizadas do Estado.
Neste cenário, o Brasil encontra uma posição estratégica para exercer liderança no Sul Global na construção de um modelo de governo digital ético, inclusivo e baseado em dados abertos. O avanço no GovTech Maturity Index, o protagonismo do GOV.BR e o volume de políticas digitais em curso conferem ao país condições favoráveis para influenciar outras nações latino-americanas e africanas na adoção de soluções tecnológicas responsáveis. Ao aliar inovação com equidade, o Brasil pode não apenas consolidar sua posição de liderança regional, mas também se tornar uma referência internacional na promoção de cidadania digital, soberania tecnológica e inovação pública com propósito social.
Em última análise, a consolidação de agendas GovTech pode redefinir a relação entre Estado e sociedade, ampliando a participação democrática e promovendo uma governança mais resiliente.
Adicionalmente, é essencial fomentar a capacitação contínua de servidores, incorporando práticas de design centrado no usuário e data literacy, de modo a sustentar a cultura digital institucional e garantir a escalabilidade de soluções inovadoras.
Outrossim, propõe-se fortalecer estruturas de monitoramento de impacto, adotando frameworks de avaliação comparativa entre jurisdições, para identificar fatores críticos de sucesso e facilitar a replicação de boas práticas em diferentes níveis de governo (OCDE, 2020).
Finalmente, recomenda-se agenda futura voltada à governança de plataformas GovTech interoperáveis, à ética em algoritmos governamentais e à diversificação de fontes de financiamento, assegurando que a evolução digital do setor público seja guiada por princípios de equidade, segurança e transparência.
REFERÊNCIAS
BRASIL. Decreto nº 10.332/2020 – Estratégia de Governo Digital
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